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19 outubro 2005

Equipando os Santos 3 - Evolução, que História é Essa?

Equipando os Santos
Edição nº3 - Teresina, 19/10/05


Evolução, que História é Essa?

Três sistemas de idéias transformaram radicalmente o século XX,. O marxismo e a psicanálise tiveram o seu auge e perderam força até serem desacreditados como ciência. A teoria da evolução durou mais tempo, e já morreu, mas seus seguidores se recusam a enterrá-la, contra todas as evidências científicas e filosóficas.

Como assim a teoria da evolução morreu? Esta é uma pergunta inteiramente justificada se você assiste televisão ou lê revistas no Brasil. Nossa imprensa se recusa a admitir isso e está sempre nos bombardeando com notícias ou programas sobre a descoberta de fósseis e mais fósseis que levam a teses e mais teses afirmando nossa origem a partir do nada primitivo.

O primeiro problema com esta posição é filosófico. Uma teoria é uma tese aberta ao questionamento. Uma teoria é sempre incompleta e nunca pode ser considerada como verdade absoluta. No entanto, a teoria da evolução é tida como verdade incontestável, quase como uma religião, com seus seguidores indo a extremos cada vez mais radicais para continuar a sustentá-la.

O segundo problema é científico. O darwinismo tem incoerências e falhas metodológicas características da época em que surgiu que seriam impensáveis de serem admitidas hoje em dia. No entanto isso não é discutido abertamente, mas só na literatura especializada, sem que o grande público tenha acesso à informação. Exemplos disso são os casos do tentilhões e das mariposas que formam a base da teoria embora o segundo não tenha sido dado por Darwin.

Em algumas ilhas isoladas do oceano Pacífico, Darwin descobriu que os tentilhões de bico comprido eram mais abundantes em umas e os de bico curto em outras. Ele observou que isto estava relacionado à oferta de alimentos no ambiente. Os bicos compridos estavam mais adaptados para colher insetos e larvas em buracos nas árvores. Assim, onde havia muitos insetos, a população de tentilhões de bico comprido era grande. Contudo, em outros locais, onde o alimento disponível eram sementes de casca muito dura, prevaleceram os pássaros de bico curto e resistente, capazes de quebrar as sementes e comer as nozes dentro delas.

O caso das mariposas Biston, da Inglaterra, é o seguinte: havia dois tipos delas, as brancas e as pretas. As brancas existiam em maior número, porque ficavam praticamente invisíveis sobre o tronco claro das árvores. As pretas, sempre mais visíveis eram vítimas dos predadores. A situação se inverteu, observaram os darwinistas, com a industrialização inglesa. As chaminés das fábricas espalhavam fuligem pelo ar, tornando as árvores escuras. As mariposas brancas passaram a ficar expostas, enquanto as negras desapareciam das vistas dos predadores. É claro que a população das últimas cresceu, enquanto a das primeiras diminuiu. Depois, o governo aprovou leis regulamentando a emissão de poluentes pelas fábricas e a situação se inverteu novamente, as mariposas brancas voltaram a dispor das árvores de tronco claro para se esconder e aumentaram de número, enquanto as negras diminuíam.

O problema é que em nenhum dos dois casos, houve surgimento de novas espécies, mas simplesmente crescimento de populações já existentes de acordo com o ambiente! Ou seja, estamos diante de um caso claro de uma conclusão baseada em proposições no mínimo duvidosas.

Creio que precisamos discutir mais o assunto. Os dois artigos de hoje tratam disso. O primeiro mostra o racha no mundo científico com relação aos resultados do projeto de mapeamento do genoma humano (aliás, em breve, novidades sobre o chamado "lixo do DNA"!). O segundo, tirado do site do Observatório da Imprensa, mostra que os cristãos estão à frente do debate.

Boa leitura!

Allan Ribeiro

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O Genoma Humano
por Carol Loeffler (Traduzido por Allan Ribeiro)
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O anúncio do fim do mapeamento do genoma humano tem trazido algumas reações interessantes – se não divertidas e contraditórias – da comunidade científica com relação ao que o mapa nos mostra. Estas diferenças revelam o crescente cisma na comunidade científica acerca do assunto de origens e do "fim da ciência". Mais e mais cientistas estão sendo confrontados pelo fato de que a ciência falhou em responder questões básicas acerca das origens do universo e da vida, e a evidência contradiz muito do que tradicionalmente se crê sobre o darwinismo.

Dois artigos, que apareceram em 16 de fevereiro de 2001, contradiziam diretamente um ao outro. Ambos mostravam cientistas reagindo ao projeto de mapeamento do genoma.

O primeiro artigo, intitulado "Darwin Comprovado", foi escrito pelo dr. Arthur Caplan, Ph.D., diretor do Centro de Bioética da universidade de Pensilvânia, na Filadélfia. O professor afirma que "o genoma revela, indubitavelmente e além de qualquer suspeita séria, que Darwin estava certo – a humanidade evoluiu durante um longo período de tempo de animais ancestrais primitivos. Nossos genes mostram que o criacionismo científico não pode ser verdadeiro. A resposta a todos aqueles que batem em suas Bíblias e dizem que não há provas, nem testes ou evidências que apóie a evolução é 'A prova está bem aqui, em nossos genes' " [1].

Lendo o artigo, alguém poderia ter certeza de que a ciência provou de uma vez por todas que a Bíblia está errada. No entanto, o professor Caplan não trabalhou no projeto genoma. No mesmo dia, o San Francisco Chronicle publicou um artigo intitulado "O Mapa do Genoma Humano Faz os Cientistas Falarem Sobre Divindade", que trouxe uma entrevista com Gene Myers, que foi o cientista da computação no quartel-general da Celera Genomics, o qual verdadeiramente trabalhou no mapeamento genético. Myers disse, "Somos deliciosamente complexos no nível molecular... nós não nos compreendemos ainda, o que é ótimo. Ainda há um elemento metafísico, mágico". Ele continuou dizendo, "O que me deixa realmente estupefato é a arquitetura da vida... o sistema é extremamente complexo. É como se tivesse sido planejado" [2]. Quanto a dizer que isto envolve um planejador, Myers disse, "Há uma grande inteligência aí. Eu não vejo isso como sendo anticientífico. Outros podem pensar assim, mas eu não".[3]

A contradição entre estes dois pontos-de-vista é na verdade um choque entre duas cosmovisões. Dr. Caplan apoderou-se das semelhanças no código genético como prova de que os humanos e as, por assim dizer, formas de vida mais simples são descendentes de um ancestral comum. Em sua ânsia de defender a evolução, ele excluiu a possibilidade de que um criador inteligente possa ter usado o mesmo sistema de codificação funcional para mais de uma espécie.

Ironicamente, muitos dos mesmos cientistas que negam o complexo sistema de codificação das moléculas do DNA como evidência de desígnio inteligente, também apóiam a do projeto SETI (Busca por Inteligência Extra-terrestre), que vasculha os pontos mais distantes da galáxia por sinais não-casuais e não periódicos que atestariam a presença de inteligência alienígena. Seu preconceito contra Deus os tem cegado para outras explicações possíveis para as informações científicas coletadas.

Enquanto o Projeto Genoma Humano tem produzido um mapa do genoma humano com sucesso, ainda falta mapear as proteínas codificadas por nossos genes. Somente um terço dos genes do genoma humano contêm seqüências repetitivas que os cientistas rotulam de "lixo do DNA" porque, até o momento, elas parecem não ter nenhuma função [4]. O que nós sabemos a respeito do código do DNA é que é digital, corretor de erros, redundante e auto-replicante. Em cada novo avanço na área da genética, estamos constantemente descobrindo o quão complexo o DNA é e o quanto ainda temos que aprender. O que tem sido chamado de "o Livro da Vida" é mais que uma biblioteca [5]. O campo é ta complexo que o presidente Bush está considerando uma proposta de contratar um coordenador de biotenologia para atuar entre as agências do governo e os cientistas neste campo que está mudando tão rapidamente [6].

A Luta Pelas Mentes

Existem numerosas admissões emergindo da literatura técnica sobre sérios "problemas" com a idéia de o acaso ser o responsável por um design tão complexo do DNA, mas isso é mantido virtualmente em segredo pelos gurus da cultura da ciência pop da evolução e suas publicações [7]. Poucas pessoas fora das disciplinas científicas têm acesso à literatura especializada, e os gurus não querem dizer ao público que sua teoria premiada está com dificuldades reais. Um novo livro de Jonathan Wells, Icons of Evolution [Ícones da Evolução], é uma ousada revelação do apoio fraudulento á evolução, que continua a ser publicado em textos escolares e ensinado como fato. Por exemplo, "...evidência da teoria de Darwin: mariposas salpicadas. Antes de 1820, a maioria das mariposas salpicadas eram claras, mas durante a revolução industrial elas passaram a ser predominantemente escuras. Em tese a mudança ocorreria porque as mariposas de cor clara eram mais visíveis contra as árvores de troncos cobertos pela poluição – troncos mais escuros, e assim erram devoradas por pássaros predadores. Livros-texto tipicamente ilustram esta história com fotografias de mariposas salpicadas em troncos de árvore. Em 1980, no entanto, biólogos descobriram que mariposas salpicadas não pousam em troncos de árvores em seu ambiente natural. As fotografias do livro-texto foram montadas colando-se ou alfinetando mariposas mortas aos troncos[8] ".

Na verdade, a atual luta entre o Darwinismo x Design Inteligente parece mais uma questão de debate filosófico do que avaliação de evidência científicas. O darwinismo está começando a mostrar os sinais clássicos, desesperados de uma filosofia falida à medida em que seus argumentos tornam-se mais e mais irracionais em uma tentativa de impulsionar algo que está sendo rapidamente refutado. Enquanto a disputa torna-se mais feroz no futuro, mantenha em mente que tecendo esses argumentos estão mentes brilhantes: mentes capazes de analisar informações complexas, imaginar, teorizar e extrapolar limites. Estas mentes são obviamente um triunfo do acaso? Não!



Publicado originalmente em abril de 2001

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**NOTAS**
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1. Caplan, Arthur, "Darwin Vindicated!" MSNBC www.msnbc.com, 21 de fevereiro de 2001.
2. Abate, Tom, "Human Genome Map Has Scientists Talking About the Divine," San Francisco Chronicle, 19 de fevereiro de 2001.
3. Patrizio, Andy, "Genome Effort Hits Home," Wired News, 17 de fevereiro de 2001.
4. Belsie, Laurent, "The Short, Simple Human Gene Map," Christian Science Monitor, 13 de fevereiro de 2001.
5. Jasny, Barbara R. and Kennedy, Donald, "The Human Genome," Science Magazine, 16 de fevereiro de 2001.
6. Rosenberg, Ronald, "Bush May Hire Biotech Coordinator," The Boston Globe, 21 de fevereiro de 2001.
7. Meyers, Dr. Steve, entrevista com o Dr. Meyers, Diretor do Center for Renewal in Science and Culture [Centro para a Renovaçãona Ciência e Cultura], Seattle, no programa de rádio Steel on Steel, 10 de março de 2001.
8. Wells, Jonathan, "Let's Change Science Standards And Let Students Do Real Science," [Mudemos os Padrões da Ciência e Deixemos os Alunos Fazerem Ciência de Verdade] Philadelphia Inquirer, 11 de Dezembro de 2000.

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CORPORATIVISMO CIENTÍFICO
Girafas, mariposas e anacronismos didáticos – II

Isabel Rebelo Roque (*)

No primeiro artigo sobre este tema, publicado na edição anterior deste Observatório, tratei do clássico exemplo do pescoço das girafas, utilizado em inúmeros materiais didáticos para contrapor darwinismo e lamarckismo [veja remissão abaixo]. O bloco final daquela primeira parte especulava sobre as possíveis razões de se perpetuar um exemplo irrelevante do ponto de vista histórico e inadequado do ponto de vista científico.

Nesta segunda parte, abordarei um assunto que, em certa medida, apresenta pontos em comum com o anterior, mas se reveste de detalhes um pouco mais delicados. Além disso, certas especificidades têm feito com que se mantenha em maior evidência na mídia científica.
Neste mês de agosto está sendo lançado nos Estados Unidos o livro Of moths and men, escrito pela jornalista Judith Hooper e já lançado na Inglaterra há alguns meses. Sobre ele, o editor de ciência Nicholas Wade escreveu a resenha "Staple of evolutionary teaching may not be textbook case", na edição de 18 de junho de 2002 do jornal The New York Times.

A publicação do livro de Hooper lança luz sobre um assunto que vinha se mantendo restrito a um determinado círculo: o dos que defendem as idéias criacionistas ou intervencionistas – mais modernamente, as idéias do "design inteligente" –, e que vivem à cata de pontos fracos na teoria da evolução de Darwin.

Mais um exemplo clássico

Nas aulas de Ciências e Biologia, aprendemos que, por meio de um processo denominado "melanismo industrial", populações de mariposas do gênero Biston, encontradas na região de Manchester, na Inglaterra, sofreram alteração em seu padrão de cor.

Isso teria acontecido mais ou menos assim: antes da Revolução Industrial, os troncos das árvores das florestas habitadas pelas mariposas Biston tinham grande quantidade de liquens (associação entre algas e fungos), que lhes conferiam cor esbranquiçada. O padrão de cor predominante nas populações dessas mariposas, na época, era claro, e elas facilmente se camuflariam, isto é, se confundiriam com a cor dos liquens, ao repousar sobre os troncos. A camuflagem é um importante recurso de sobrevivência em certas espécies: confundindo-se com o ambiente, o risco de ser visto pelo predador diminui.

Com o advento das indústrias, a partir de 1850, o ar, carregado de fuligem e outros poluentes, provocou a morte dos liquens e o escurecimento dos troncos. Como resultado, teria havido uma inversão na vantagem exibida pela cor clara das mariposas: ao repousar sobre troncos escurecidos, elas passariam a ser facilmente visíveis para o predador (nesse caso, determinados pássaros). Com isso, a variedade melânica, isto é, de cor escura, existente em menor número naquelas populações, teria passado a predominar graças à capacidade de passar despercebida ao predador, de se camuflar nos troncos escurecidos.

A partir de 1950, com a criação de leis de controle ambiental à emissão de poluentes, esse padrão novamente se inverteu: troncos com novas populações de liquens, portanto mais claros, passaram a esconder melhor exemplares de mariposas com o padrão de cor clara.
A esse exemplo de melanismo industrial os livros didáticos costumam acrescentar a descrição de uma série de experimentos realizados pelo biólogo Bernard Kettlewell, da Universidade de Oxford, na década de 1950. Muitas vezes, os livros apresentam fotos com o registro dos experimentos – ou então fotos produzidas com o fim de reproduzir esse registro. Tais fotos mostram exemplares claros e escuros de mariposas Biston repousando sobre troncos de árvores.

O que se relata nos livros é que, em seus experimentos, Kettlewell coletou exemplares de mariposas com os dois padrões de cor e os liberou em ambientes controlados que apresentavam troncos também com diferentes colorações. Ao recapturar os exemplares sobreviventes, ele teria constatado o que já se esperava: o índice de sobrevivência era diretamente relacionado ao padrão de cor dos troncos.

Algo de podre

Tudo estaria perfeito, não fossem, como no caso das girafas, alguns senões. O primeiro deles foi a descoberta de que os experimentos de Kettlewell não transcorreram exatamente daquele modo: houve um certo "empurrãozinho", pois as mariposas não estariam vivas, mas teriam sido coladas aos troncos das árvores. O segundo é que o comportamento das mariposas Biston na natureza não se encaixa tão perfeitamente no modelo descrito. O terceiro é que a relação de predomínio de uma cor/grau de poluição ambiental não se manteve como o esperado.

O livro de Hooper não é o primeiro a "devassar" o caso Kettlewell. Há quatro anos foi publicado Melanism: evolution in action, de Michael Majerus, que tratava desse assunto, entre outros. Quem assinou uma resenha sobre ele, publicada na Nature, intitulada "Not black and white", foi Jerry Coyne, do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago. Nela, Coyne compara a decepção diante da verdade sobre os experimentos de Kettlewell ao que sentiu quando criança ao saber que Papai Noel não existia...

Coyne comenta que o livro de Majerus é o primeiro a reunir os pontos criticáveis nos experimentos de Kettlewell. O mais grave deles é que as mariposas Biston, em condições naturais, provavelmente não repousam sobre troncos de árvores – em mais de 40 anos de estudos sobre seus hábitos, somente duas delas foram vistas fazendo isso. O local de preferência continua um mistério, mas acredita-se que seria o alto das copas das árvores. Só isso, afirma Coyne, bastaria para invalidar os experimentos de Kettlewell, uma vez que as mariposas, colocadas sobre os troncos, tornar-se-iam altamente visíveis a seus predadores, numa condição artificial que forçaria sua predação. Além disso, Kettlewell expôs suas mariposas durante o dia, quando elas geralmente escolhem locais de repouso à noite.

Mas há ainda um fator para comprometer toda a história: na verdade, o novo aumento na ocorrência da variedade clara aconteceu bem antes da recolonização dos troncos pelos liquens, condição que pretensamente favoreceria a camuflagem da variedade no ambiente. E mais: um crescimento e decréscimo da população da forma melânica, isto é, escura, também se deu paralelamente em áreas industriais dos Estados Unidos, onde, entretanto, não houve alteração na incidência de liquens – o que relativiza bastante o papel destes últimos na história toda.
Em sua resenha, Coyne cita uma análise similar à de Majerus, publicada em artigo quase que simultaneamente: "Sargent et al", Evol. Biol., 30:299-322, 1998. Vale assinalar que se trata do Dr. Theodore Sargent, da Universidade de Massachusetts, que viria a ser a figura central do livro de Judith Hooper lançado agora, quatro anos depois.

Descartar ou não as mariposas?

Majerus admite, em seu livro, as inúmeras falhas do modelo, mas ainda assim considera útil continuar a usá-lo. Jerry Coyne, entretanto, pondera que esse não é exatamente o melhor exemplo a ser utilizado em sala de aula, devido a seus pontos fracos – posição que fez de Coyne, à sua própria revelia, uma "arma" dos criacionistas para atacar os evolucionistas.
Ele sugere como mais apropriado o trabalho desenvolvido por Peter e Rosemary Grant, nas últimas décadas, sobre a evolução do bico dos tentilhões das Ilhas Galápagos. (Sobre o trabalho dos Grant, há um livro de leitura fácil e agradável, vencedor do Prêmio Pulitzer de 1994 e traduzido para o português: O bico do tentilhão: uma história da evolução no nosso tempo, do jornalista Jonathan Weiner. Ironicamente, enquanto se insiste em utilizar, com tantos "furos", a história das mariposas nos livros e nas aulas, a adoção do estudo dos Grant acabaria contando mais pontos para Darwin. Afinal, foram exatamente os tentilhões observados nas Galápagos, durante sua viagem no Beagle, que o levaram a formular sua teoria da evolução por meio da seleção natural.)

Em sua resenha de 18 de junho no New York Times sobre o livro de Judith Hooper, Nicholas Wade compara o "empurrãozinho" dado por Kettlewell a um recurso humorístico utilizado pelo antigo grupo inglês Monty Python: as mariposas não passavam de "ex-mariposas", exemplares mortos colados aos troncos das árvores.

Mas a discussão sobre continuar ou não utilizando a história das mariposas como recurso pedagógico está longe de uma solução fácil. A esse respeito, o professor David Rudge, da Western Michigan University, escreveu textos como "Does being wrong make Kettlewell wrong for science teaching?". Segundo ele, a manutenção da história no espaço escolar apresenta inúmeras vantagens.

Em contraste com Jerry Coyne, para quem os detalhes contraditórios de tudo o que envolve a história das mariposas Biston inviabilizam sua utilização pedagógica, Rudge pondera que ela constitui um excelente veículo para introduzir os estudantes no conceito de seleção natural. Ele complementa que expor aos estudantes as discrepâncias envolvidas no assunto poderá ser uma excelente forma de sensibilizá-los para a natureza da ciência como processo.

E agora, José?

Pelo relato que os leitores acabaram de ver, dá para notar que o caso das mariposas de Kettlewell tem sido o centro de uma verdadeira ciranda de especulações, de prós e de contras, no mínimo, há quatro anos. Há muitos outros lances "rocambolescos", que envolvem a relação nem um pouco tranqüila entre Kettlewell e seu supervisor, à época dos experimentos, o que é descrito por Judith Hooper em seu livro. Nada disso, entretanto, ocupou até hoje a mídia científica brasileira.

Aqui, novamente nos vemos diante de uma questão delicada, nas quais aspectos como corporativismo da comunidade científica, necessidade de controle, manipulação, de um lado, e desinformação, de outro, estão em jogo. Não é de hoje que o assunto "fede", mas até agora, ao que parece, apenas o nariz dos criacionistas estava com seu olfato apurado...
Assim como no caso do exemplo da girafa – tão perfeito, tão didático, mas falso –, recorrer às mariposas de Manchester e aos experimentos de Kettlewell é tentador, dada a simplicidade com que permitem trabalhar conceitos complexos como evolução e seleção natural.
Mas insistir neles é falsear informações e, de quebra, passar a alunos e professores uma idéia nada ética da ciência. A ciência não tem de ser ensinada como a arte do "jeitinho", mas como uma instância do conhecimento sujeita a falhas, a revisões, a aperfeiçoamentos, a inesperadas complexidades diante do que parecia simples e "didático".

Só assim a ciência e os fazedores de ciência escaparão do dogmatismo de que tantos os acusam.

Referências

COYNE, Jerry. "Not black and white". Nature, 396:35-6, 1998.
DARWIN, Charles. Novo endereço na internet com os textos originais de Darwin, em inglês (incluindo a primeira e a última edição da Origem das espécies): http://pages.britishlibrary.net/charles.darwin
RUDGE, David W. "Does being wrong make Kettlewell wrong for science teaching?". Journal of Biological Education, 35(1):5-11. Outros textos de Rudge: http://homepages.wmich.edu/~rudged
WADE, Nicholas. "Staple of evolutionary teaching may not be textbook case". The New York Times, 18 jun. 2002.
WEINER, Jonathan. O bico do tentilhão: uma história da evolução no nosso tempo. Rio de Janeiro, Rocco, 1995.


(*) Editora de livros didáticos

2 comentários:

Ugo Fragoso disse...

Ouvi numa palestra que o Genoma humano teria concluído seu projeto.E acontecera em 25 de dezembro de 2002.Um estudo que começou em 1995 e previa terminar só em 2005.Mas chegaram a conclusão em 2002.E e a matéria foi divulgada no jornal O GLOBO em 25/12/2002 na última página do jornal.Onde afirmara que O GENOMA HUMANO com o sustento de bilhões de báses químicas do DNA, chegou a conclusão, que todos os homens tem um ancestral comum,ou seja,não de primatas.

Porêm eu não consegui baixar essa matéria.Se alguém conseguir,por favor,envie pra mim..
um abraço!!!

ugofragoso@hotmail.com

Vivendo pela Palavra de Deus!!! disse...

Bom dia!! Fazendo uma pesquisa pela internt encontrei seu blog e gostei muito!!! Que muitos sejam equipado atraves desse trabalho